À BEIRA DO FOGO

Crepita o fogo... A chama atravessa
As toras de madeira como a ardente
Língua que em tua boca, um forno quente,
Entre os carnudos lábios se apressa.

Porém se as labaredas vão depressa
Consumindo as achas, entre a gente,
O braseiro dos corpos, em fremente
Ritmo das chamas, queima sem ter pressa.

Chora a madeira em gozo consumida,
Se esvaindo na seiva embranquecida,
Deixando apenas cinza e odor no ar.

Já os corpos abrasados, assim como
As toras, deitam seiva, mas no assomo
De ardores nunca param de queimar.

Erigutemberg Meneses


POETA

Nem o mago, o sábio, o vidente,
O mágico, o santo ou o profeta
Possuem o dom que torna o poeta,
Dentre os mortais, um ser onisciente.

Revelações de fé e a tão presente
Memória de imortais na inquieta
Consumação no pó da biblioteca
Tratam o saber de modo insciente.

Somente, o poeta, cujos versos
Expõe extremos, raros e diversos
Anseios, do saber retira os véus.

Pelo milagre e a graça da poesia,
Vidência, santidade e sabedoria
Transformam o poeta em quase Deus.

Erigutemberg Meneses



SEGREDO

Chegou-me à varanda outro dia,
Cedinho, um esquivo beija-flor.
E ao beijar o botão que se abria
Esperançoso o meu peito deixou.

- É um mensageiro e traz a alegria
De uma noticia boa que guardou
Para me segredar... Eu me dizia,
Ainda, fiel a um doce e antigo amor.

Mas logo ele se foi... E na ciranda
Dos desenganos, hoje, à varanda,
Penso que se trouxera algum recado,

Contara à flor. Se foi, todo o enredo
Do que dissera, ainda, é segredo:
A flor murchou sem nada ter contado.

Erigutemberg Meneses