CATEQUESE

Quem for de chão em galhas se estrepa
E nada adianta rezingar,
Abusando Deus, se outros seres há
Que sem mão pra agarrar no céu se trepa.

O destino as asas de um decepa,
Enquanto a outro, muitas delas dá;
E para o escolhido pode o ar
Faltar que lá do alto mais se increpa.

Menos sente a injustiça quem ignora
Que o escolhido sobre nuvens mora,
Enquanto outros rastejam como cão.

O tolo que assim pensa foi criado,
Também, ouvindo que o ser alado
No principio do vôo saiu do chão.

Erigutemberg Meneses

TEMPO

Não voltaria, mesmo se pudesse,
O tempo e refazer o que agora,
Apenas é capítulo da história
Igual a tantas que o tempo tece.

O estranho pensar até parece
Esconder sentimentos de Pandora
Por quem há muito foi de porta afora
E o peito solitário não esquece.

Mudando o tempo, nada me garante
Que ao estarmos de novo os dois diante
Do ponto em que surgiu o contratempo,

A história ganhe enredo diferente...
Eu não culpo o tempo... Culpo a gente
Que não mudou, enquanto havia tempo.

Erigutemberg Meneses


BODAS

À pedra com poder de dar a vida,
Nas bodas, entre ardente e bacante,
Ofereço em tua honra, ó meu amante,
Três argolas da aliança prometida.

Do estojo do corpo palpitante,
A primeira argola esculpida
Com os lábios a ti é oferecida
A fazer de tua pedra um diamante.

A segunda argola que está entre
As carnes logo abaixo de meu ventre
Dou às águas do prazer mais cristalino.

E a terceira argola, o adereço
Último do pudor, te ofereço,
Selando um matrimônio genuíno.

Erigutemberg Meneses


ESCRITA DO AMOR

Às vezes, quando falo em silêncio
E o teu corpo entende o que eu falo,
Vejo que, com palavras, eu me calo,
Sem dizer de verdade o que penso.

Se falo com o corpo em tão intenso
Dizer sobre o teu em doce embalo,
Não há palavras, mas em nós o halo
Surge do entender-se por consenso.

Palavra, sendo oral ou mesmo escrita,
A depender do modo, quando dita,
Pode enganar, se esse for o plano.

Mas se o corpo compõe o manuscrito,
Não há como enganar no que é dito:
A escrita do amor não traz engano.

Erigutemberg Meneses


ESCULTURA

Desenho com saudade a criatura
Ao feitio do artista mais fiel
Aos traços recolhidos com o pincel
Ou cinzelando o corpo em escultura.

Os riscos e as cores na pintura
Do rosto a sorrir dão um painel
E o martelo e a força do cinzel
Esculpem os quadris em arte pura.

Sim, há uma hora intensa em cada dia,
Em que da vida tudo o que eu queria
Era criar teu corpo e tê-lo à mão,

Mas, sei, o esboçado à mente é parte
De sonhos e não chega a ser arte
Final de um cansado artesão.

Erigutemberg Meeses

O MURO E A ROSEIRA

Ao ver tênue roseira dando flor,
No cimo de um muro em ruína,
Observei que tu sendo franzina
És a roseira e o muro velho eu sou.

Com uma diferença que alucina
Em nossa vida o tempo operou.
Andamos e quem passa olha a menina
Seguida por um velho, seu avô.

Fitando-te, ainda, jovem e faceira,
Eu imagino possa a roseira
Sem seiva sobre o muro emurchecer,

E que passando jovem jardineiro
Compadecido a regue e ligeiro
A faça o muro velho esquecer.

Erigutemberg Meneses


LAVAS DE MENTIRAS

Pensei que a saliva fosse lava
Dos lábios de vulcão que consumia,
Mas o ardor da boca que provava
Vinha de fogo-fátuo... Ela mentia...

E a mais fiel, ingênua escrava,
Cujo corpo entregava em alegria
E outros vulcões abria e me dava,
Como o fogo da boca, era heresia...

Jamais imaginei que fosse jogo
O amor que me jurava e tanto fogo
Pudesse ser fugaz em suas piras...

Como prever, pensar que fossem duas
Aquela que nas carnes rubras nuas,
Me consumia em lavas de mentiras?

Erigutemberg Meneses

TÔNUS

A alma humana é corda esticada
Que necessita sempre de ajuste.
Mesmo que ao corpo em arco muito custe,
Deve ser todo dia ajustada.

A vida é orquestra afinada,
Um instrumento nela em desajuste
Transformará a ópera em embuste
E a melodia, obra inacabada.

E cada um é seu próprio maestro
Que assume a batuta sob empresto,
Regendo a partitura de sua vida.

A nota de uns será igual ao choro
E a de outros, voz de pássaro canoro
Por vir de afinação mais precavida.

Erigutemberg Meneses

SAUDADE

Ah! Se saudade fosse o efeito
Do que já foi, mas pode ser mudado...
Eu ia ter alguém, aqui do lado,
De um, de dois, de mil... De qualquer jeito...

Ah! Se saudade fosse o defeito
Da agulha sobre o disco arranhado...
Eu ia ouvir de novo o passado
No presente, porém com som perfeito...

Ah! Se saudade fosse o que não é...
...Um homem solitário sem mulher,
Uma mulher sozinha sem um homem...

Saudade... Sim, eu sinto-te saudade,
Porque és ressonância da idade
De quem lembranças dele nunca somem.

Erigutemberg Meneses

PADEIRO ESPIRITUAL

De manhã cedo, mal estou desperto,
Dou-me a misturar ingredientes
Dos pães de versos feitos pra clientes
Amantes do café do livro aberto.

Amasso a palavra e ao tempo certo
Levo ao forno das páginas candentes
E cada verso, como os pães quentes,
Nutrem a alma, quando o ponto acerto.

Ao fermentar a verve, sou o padeiro
Expedito a fazer no tabuleiro
Da padaria os bons versos de pão.

Mas se o pão ao padeiro a vida rende
O pão de poesia não se vende,
É doado ao faminto de emoção.

Erigutemberg Meneses

AMOR ANTIGO

Se já não fosse tão fora de moda
O amor do jeito como era antes,
Quando no amor os dois eram bastantes,
De novo eu entraria nessa roda.

Mas juro, hoje, muito me incomoda
Esse tipo de amor feito de instantes,
E onde os dois se fingem de amantes,
Pois juntos, vão a sós na vida toda.

Desse amor de entrega sempre a esmo,
Em que cada um vive em si mesmo,
Eu passo ao largo, alheio ao que mudou.

Se fosse como fora o amor antigo,
Ah! Eu repartiria o meu contigo,
Que mesmo envelhecido é mais amor.

Erigutemberg Meneses

MENINO DE RUA

Tão sem vontade vim a este mundo
Que o ventre materno, se floriu
Como uma bela rosa não se abriu
À luz, ante o suspiro mais profundo.

Peito de mãe não tive um segundo
Por que morreu depois que me pariu
E os carinhos do pai... E quem já viu
Dar carinho a mão de um vagabundo?

Escorreguei por becos lamacentos,
E guiado pelas mãos e pés sangrentos
Segui atordoado em cada passo.

Na podridão das ruas, no abandono,
Tratado como fosse cão sem dono,
Deixo o que recebi por onde passo.

Erigutemberg Meneses

FOGO-FÁTUO

Todo amor é real, não se inventa.
Quem finge ter amor engana a si,
Supondo tolo o outro e persistir
Na infame aleivosia que alimenta.

O falso sentimento se agüenta,
Enquanto a esperança existir,
Mas quando o desengano a consumir
O castelo de areia se arrebenta.

É que o amor, se foge à razão,
Não permite, ao domínio da emoção,
Manter-se o fogo-fátuo em suas piras.

Reage então o outro ao falso jogo
Das palavras, ao ver queimar o fogo
Dos gestos com o frio das mentiras.

Erigutemberg Meneses

MAR DE SOLIDÃO

O amor quando termina nos castiga
Com a desilusão e o desconforto
Do barco que o horizonte avista torto
E ruma aos rochedos em fadiga.

E sem à noite ter a luz amiga
A dar a direção certa do porto
O vento da suspeita leva o morto
Coração ao abismo da intriga.

O ciúme é o clímax do tormento
Sofrido pelo barco em tombamento
Sujeito às águas que a tudo invade.

O amor quando nos deixa à sorte avessa
Do mar de solidão nos arremessa
Contra o desespero e a saudade.

Erigutemberg Meneses


SONHOS

E quando sonho único restar
Dos simples que sonhei ao mais estranho,
Eu vou pedir aquele do tamanho
Possível de poder realizar.

Já estendi meus sonhos sobre o mar
E os miúdos grãos que nem apanho.
Por grandes ou pequenos nenhum ganho
Tive por mais que pude me esforçar.

Cansei das fantasias não cumpridas,
Desejos apoiados na ilusão...
Os sonhos hoje eu sei que eles serão

Capazes de alegrar as nossas as vidas,
Não sendo realidades distorcidas,
Se puderem ser pegos com a mão.

Erigutemberg Meneses

NATUREZA

O sol estende o olhar sobre os campos.
Suspiram ante a luz os tenros galhos...
Os raios, puras gotas de orvalhos,
acendem a terra - os grãos são pirilampos...

Retortam-se as plantas sob os ventos
que dão mais força ao caule e as raízes
profundas se alimentam e em matizes
de sonhos as galhadas vêem os rebentos.

Cala o outono o ciciar das folhas,
As ramas impõe a falta das escolhas:
o enlace some! Não há mais calor!

Contudo, os brotos tidos sob a casca
virão, após passada a borrasca,
tornar de cada nódulo uma flor!

Erigutemberg Meneses

MEU TESOURO

Meu coração é cofre sem segredo
A servir seu tesouro a quem quiser.
Não precisa quebrá-lo, o que puder
Levar de agrado, leve, eu concedo.

A riqueza que tem nem no enredo
De um conto de fadas vai caber,
Pois um príncipe pobre pode ser,
Se a fortuna é tocada com o dedo.

As pedras preciosas, prata e ouro
Não se encontram no cofre, o tesouro
Reflete outra forma de valor.

Tão comuns quanto as águas e os ventos,
São as jóias do cofre, os sentimentos,
E o mais valioso é o amor.

Erigutemberg Meneses

MÃE-NATUREZA

Não há filho dos outros, todos somos
Filhos de uma só mãe, a Natureza,
E ao virmos de seu ventre, com certeza,
Feitos para cuidar dos outros fomos.

E toda a diferença que supomos
Haver entre nós Deus em sua grandeza
De pai doou para que a beleza
Da criação ficasse em muitos gomos.

Somos todos irmãos e sobre a terra
O filho de um irmão é o do que erra
Distante, esteja onde estiver.

E em cada animal, ave ou peixe,
Nas plantas e moléculas em feixe
Há um filho ou um irmão a se acolher.

Erigutemberg Meneses

PROMESSA

Só basta certo tipo de promessa
Feita de forma simples, convincente,
Para fazer vibrar de tão contente
O peito onde a saudade já começa.

Meus olhos e ouvidos pregam peça
E do que leio e ouço sou descrente.
Prometa-me! Mas faça, se somente,
Cumprir, por mais que o mundo te impeça

E ao prometer, não jure, seja pura,
Porque se sabe, alguém que sempre jura,
No juramente esconde a falsidade.

Prometa sem o claro e manifesto
Sentido das palavras, dê ao gesto
O valor de quem ama a verdade.

Erigutemberg Meneses

LIVRO DE CABECEIRA

Eu sou um livro velho, empoeirado,
Esquecido num canto da estante,
Já lido, a recordar do expectante
Toque de dedos, sendo folheado.

E quando cada verso copiado
Recebia o zelo mais constante
Do olhar da musa terno e lacrimante
A deixar o volume encharcado.

E da emoção tirada do escrito
Que, ao dar leveza e graça ao espírito,
Era durante o dia companheira...

Sou hoje um livro velho, mas a escrita
Expressa a emoção, mil vezes dita,
Quando em tua cama ornava a cabeceira.

Erigutemberg Meneses

QUEBRA-CABEÇA

Há um quebra-cabeça em meu peito
E a gravura forma um coração.
Junto as peças, mas não acho jeito
De concluir a sua arrumação.

Simula cada peça o conceito
Da mais pura e profunda emoção
Ligada a alguém que ao efeito
Da afinidade dei minha afeição.

A peça da amizade está bem posta,
Unida à da alegria que se encosta
À do prazer que alguém me dedicou.

Por mais, contudo, eu queira terminar
O quadro não consigo encaixar
A peça atinente ao amor.

Erigutemberg Meneses