CATA-VERSO

Os meus versos parecem o brinquedo
Com que nunca me canso de brincar...
É um galo cata-vento que bem cedo
Eu coloco no tempo a girar.

E a cada giravolta um segredo
Conto, pois sei que ele vai quebrar
E sempre acrescido o enredo
Em teus ouvidos vai aterrissar.

Catando a emoção por um momento,
Sempre a girandolar, sem nenhum vento,
A imaginação deixo à-toa,

Pra nas asas do galo ir voando,
Contigo à garupa gargalhando
E achando a brincadeira muito boa.

Erigutemberg Meneses

EU, POETA

Não sou herói, tampouco sou profeta,
De quem o tempo guarde grandes feitos.
Na febre dos desejos, meus defeitos
Cultuo, sendo humano e poeta.

Sombrios os heróis, todos ascetas,
Nos rituais da morte são perfeitos;
E os profetas calcam seus preceitos,
Em rudes almas duras como setas.

Profetas e heróis, os dois de fato,
Resignam-se, a esperar que a garganta
Da história não lhes negue espalhafato.

Eu, poeta, vivo e prego a sacrossanta
Alegria da vida e serei grato
À história se negar-me sua manta.

Erigutemberg Meneses

VIDA É...

A quem me perguntasse sobre a vida,
Decerto eu iria responder:
- Em cada um, de um modo é pressentida
E só conhece a vida quem viver.

E sendo a existência revestida
Do que a vista pode perceber,
Há muita gente que anda confundida
Entre o viver e só sobreviver.

A vida são momentos que se sente
De uma maneira toda diferente
E por iguais não passa mais ninguém.

E não se conta a vida pelos anos,
Mas pela construção real dos planos
Que numa existência teve alguém.

Erigutemberg Meneses

VIDAS

A vida que vivi e muitas outras
Que não pude viver na existência
Gastei-as todas crendo na insistência
De nunca ser feliz numa ou noutras.

É que a felicidade e essoutras
Coisas apropriadas à inocência
Encheram essa vida de carência
E tornaram carentes aqueloutras.

E se hoje à morte vejo as vidas gastas
Na incessante busca das sarcastas
Recompensas que nunca pude ter,

Não mereci as outras e nem esta
Vida que como as outras só se presta
Não me fazer de vidas entender.

Erigutemberg Menses

SONHO

Os dois grisalhos, rindo e exaustos,
A descansarem num campo de feno,
Vejo a nós num tempo já pequeno,
Sorvendo o amor em cheios haustos.

Se não tiver a vida os mesmos faustos
De outrora, que importa! No sereno
De uma noite fria ou a sol pleno,
As dores não serão mais holocaustos.

Teremos nosso cão por companhia
E uma rosa nova a cada dia
Será de teu sorriso a irmã.

E nossas mãos cobertas com a terra
Convidarão aos pássaros da serra
Para nos acordar toda manhã.

Erigutemberg Meneses

AMOR DE TERNURA

O amor de ternura é um belo hino
Dos anjos da afeição ao fim da vida
Que teve a partitura esquecida
Nas peças da orquestra do destino.

Nos corpos enrugados o violino
Do desejo sob a mão tremida
Harpeja e a emoção, a mais sentida,
Ecoa como um cântico divino.

A carne é a peça de madeira
Do corpo a contorcer-se na maneira
Que o arco vibra teso sobre a corda.

Mas é na seção áurea do instrumento,
A alma, que se expressa o sentimento
Do violino mágico que acorda.

Erigutemberg Meneses

TEMPOS DE COLIBRIS

Houve um tempo em que os beija-flores
De meus lábios voavam sobre os teus
De rosas tão bonitas que nos céus
Até Deus se encantava com as cores.

E na fragrância suave dos odores
Teus lábios se abriram para os meus
E ao jeito de voar eu disse adeus,
Não enlevando mais as outras flores.

Desaprendi a dança pelo ar,
Por não ter mais razão para voar,
Se néctar tinha para toda vida.

Que é feito do viver daquele tempo?
Perguntam-se em triste passatempo
Os colibris na galha ressequida.

Erigutemberg Meneses

SE

Se eu fosse o tempo eu seria
O momento em que nunca encontramos
Tempo para ficar com quem amamos
Para mudar e amá-los todo o dia.

Se eu fosse uma rosa eu seria,
A rosa dos ventos que avistamos
Em um brinquedo que não mais usamos,
Mas na lembrança dá muita alegria,

Se eu fosse um astro eu seria
A estrela que perdendo o brilho insiste
Alegrar mesmo em lenta agonia.

Se eu fosse um personagem eu seria
O menino que em mim já não existe,
Mas que de novo ser tanto eu queria.

Erigutemberg Meneses

O AMOR É...

O amor é uma planta caprichosa
Sem ter certa estação pra florescer
E quando brota pode oferecer
Ao jardineiro espinhos ou a rosa.

E a luz da rosaça misteriosa
Queima e cega os olhos de quem ver
E a alma de quem não a pode ter
Sofre espinhada dor da mais penosa.

A rosa da redoma encantada
Do coração se abre quando olhada
Por dois cujos desejos são iguais.

E deve o olhar ter tempo certo,
Porquanto o encanto é incerto,
Se um olha e o outro a vê tarde demais.

Erigutemberg Meneses

REPRESA

Tudo é imaterial ante as janelas
Da casa da represa. Entre o monte
De árvores tranqüilas, lá defronte,
O céu se curva ao peso das estrelas.

Da rede no alpendre, fico a vê-las,
Saltando dos plumachos do horizonte,
Para o mergulho nas águas da fonte
De escamas redivivas amarelas.

E banhadas tomando as asas brancas
Da manhã infantil, frescas e francas,
Retornam radiantes para os céus,

Mas deixam sobre as águas o presente
De diamante que a manhã contente
Cata a despir a mata envolta em véus.

Erigutemberg Meneses

BUCÓLICO

Ao derredor, somente, o arvoredo...
Numa manhã desperta em cicio
Assustaram-se os pássaros no estio,
Aos solfejos de nós sobre o lajedo.

Minhas mãos bolinavam o segredo
Oculto entre o monte bem macio...
De tua boca ouviam grito esguio
Onde o prazer marcava-se de medo.

E o teu gorjear de passarinho
Que intimidara os outros lá do ninho
Fizera-me o corpo derreter.

E tão intenso fora aquele dia
Que a passarada em plena harmonia
Cantara ao nosso amor, vindo a nascer.

Erigutemberg Meneses

A ESTRELA

Quando estive perto de uma estrela,
No céu, fui astronauta em sonho errante.
Na terra, de uma só me vi diante,
Ao contemplar tua face rubra e bela.

A sensação que tive logo ao vê-la
Foi ter voltado ao sonho no instante.
E fiz-me de astronauta itinerante
A astro que da rota desatrela.

E nesta confusão vivo aflito
De em plena terra ir ao infinito
Nas vezes que encontro teu olhar.

Mas sei estar lidando com um astro
E assim que amanhecer, talvez, nem rastro,
Eu tenha para o sonho relembrar.

Erigutemberg Meneses

TEMPO CERTO

Cada coisa na vida tem seu tempo
E se o amor que nós temos é segredo
Para o tempo, ainda, é muito cedo
E o tem para nós um passatempo.

Mas quando superado o contratempo,
E o amor for da vida todo o credo,
A colheita virá, pois o vinhedo
Não espediça o fruto no antetempo.

O amor maturado é doce fruto
Que Deus-Pai escolheu absoluto
Como o mais precioso alimento.

E na ceia divina vamos juntos
Rever, no tempo certo, os assuntos
De quando o amor era pensamento

Erigutemberg Meneses

O TEMPO

O tempo cura todas as mazelas.
Destrói a dor e a própria cicatriz.
Tem na eternidade chama em velas
E na vida o risco em chão de giz.

O tempo vê os templos, as favelas,
A mais bela cascata e o chafariz,
Sequer, valendo o brilho das estrelas,
Que já se esfumaram de senis.

O tempo é senhor onipresente
Que nunca existiu e existirá
Sempre na razão que tem a gente.

O tempo engolfa a gente e razão
E tudo quanto possam vir criar,
No tempo, será só uma ilusão.

Erigutemberg Meneses

O CORVO

Se nunca mais o corvo em tão sombria
Visão sobre a mansarda do assombro
Agourasse, o peso sobre o ombro
De quem é morador acabaria.

Mas na morada escura e vazia
Que de um lar nem resta o escombro
A ave não se furta do ensombro,
Grasnando a dor e a melancolia.

Se nunca mais, nunca mais houvesse
O corvo sobre a casa que fenece
Aos maus presságios da negra pandora,

O peso sobre o ombro que é o mundo
Se acabaria, mas ninguém, no fundo,
Que espantar o corvo lá de fora.

Erigutemberg Meneses

O VELHO E O MAR

Talvez o barco antigo sobre o mar
Não mais resista à força das marés,
Mas o velho infenso ao revés
Ordena que ele volte a balouçar.

Talvez nem queira peixes arrastar.
A saudade reclusa nas galés
Liberta-se e a subir para o convés
Faz o velho de amores recordar.

Talvez ao empreitar essa jornada
Não queira recolher dos portos nada
E o mar enfrente para distrair.

Talvez aprisionado em uma rede
De sonhos queira mitigar a sede
Da vida que deixou de existir.

Erigutemberg Meneses

QUEM EU SOU?

Quem eu sou? Não pergunte ao sujeito
Que cultive de mim inimizade,
Pois pode falsear muito a verdade
Ou inventar bem mais de um defeito.

Também não considero ser direito
Saber por quem a mim tem amizade,
Pois embora não diga a inverdade
Defenderá a mim de todo jeito.

A mim se perguntar, o que direi?
Que sou isso e aquilo? Nunca hei
De convencer alguém com o que digo.

Mas de mim para mim, posso dizer:
Sou metade do que o amigo vê
E o dobro do que inventa o inimigo.


Erigutemberg Meneses

VIDA É...

A quem me perguntasse sobre a vida,
Decerto eu iria responder:
- Em cada um, de um modo é pressentida
E só conhece a vida quem viver.

E sendo a existência revestida
Do que a vista pode perceber,
Há muita gente que anda confundida
Entre o viver e só sobreviver.

A vida são momentos que se sente
De uma maneira toda diferente
E por iguais não passa mais ninguém.

E não se conta a vida pelos anos,
Mas pela construção real dos planos
Que numa existência teve alguém.

Erigutemberg Meneses

CANTEIRO

Um tronco inanimado sem vontade
É o corpo onde a afeição está ausente.
Se a seiva à planta dá vivacidade
O sentimento vida dá à gente.

Mas o afeto não é a frivolidade
Do desejo agindo sobre o ente.
A chuva cobre o tronco, é verdade,
Mas sem a seiva ele está doente.

Porém, estando abertos os canais
Para irrigar, as partes tão vitais
Rebrotam e do tronco nasce a flor.

O corpo ao receber o sentimento,
O mais completo e caro alimento,
Transforma-se em canteiro de amor.

Erigutemberg Meneses

PROPOSTA

Proponho caminhar pelo futuro
A amar todos os seres sem o intento
De restringir o amor ao sentimento
De alguém que faz de outro o seu muro.

Porque mais importante e seguro
Do que cuidar de um por um momento
É integrar-se a todo o firmamento
E ser a luz aonde houver escuro.

É sentir o universo envelhecer,
A renovar o mundo com o prazer
De ser feliz num sonho sem sonhar.

Quem faz de alguém missão vai ser amado,
Mas a quem todos ama muito é dado
Do amor que só em Deus se pode achar.

Erigutemberg Meneses

ECOS DA AMIZADE

De onde vem o eco que responde
Ao grito de apelo ante o perigo?
Quem fez da amizade eterno abrigo
Sem titubeio sabe bem de onde.

A quem o desespero a alma ronde
Não lhe pode acossar nenhum maldigo,
Se sua estima outro corresponde
E mesmo não não esteja ali consigo.

É que amigo, mesmo de verdade,
Sentindo a dor, de luto se invade
A repartir com o outro as desventuras.

E os ecos da amizade do ausente
Dão forças que transformam o carente
Na mais forte e feliz das criaturas.

Erigutemberg Meneses



SE EU FOSSE...

Se eu fosse uma palavra expressaria
O quanto há no mundo de uma vez
E ao som daria toda a maciez
Da voz de uma manhã, saudando o dia.

Quis Deus que eu falasse o português,
Este idioma raro da poesia,
Que nem a mais completa harmonia
Dos cânticos se iguala em altivez.

Da língua aprendi: melancolia,
Crepúsculo, esperança e nostalgia,
Primavera, candeia e liberdade...

Nenhuma sobre a outra é mais bonita,
Mas a que eu quero ser e não foi dita
É simplesmente a que traduz saudade.

Erigutemberg Meneses

MUNDO

O mundo sem um pouco de mistério,
Sem sonho, sem milagre ou fantasia
Não passa de uma tosca alegoria
De mundo a não ser levada a sério.

O mundo assim, sisudo, é funéreo
Sem vibração, sem cor, sem harmonia.
Ah! Não há um mundo sem a poesia
Do acreditar em tudo o que é etéreo.

Com o brotar do sonho o mundo rir
E acreditar no sonho é colorir
O mundo com um riso estupendo.

Preencha de mistérios o seu mundo,
De fantasias torne-o fecundo,
Que o milagre acaba acontecendo.

Erigutemberg Meneses

MULHER

Não é só feminino e singular
Do latim que se diz substantivo:
Mulher é numeral e adjetivo,
E artigo que igual outro não há.

E a conjunção de tudo nela há
Juntando ao pronome possessivo
A interjeição para tornar passivo
O verbo que ela não quer flexionar.

Se no início é preposição
Não se suprime porque a ação
Com advérbio há de vir a tempo.

Idioma difícil é a mulher
Que ao mudar de sentido quando quer
Não se aprende como passatempo.

Erigutemberg Meneses

AMOR MADURO

O amor do homem sisudo, muito sério,
Não é menor em força e extensão
Do que o amor do jovem quando então
Na candidez de tudo faz mistério.

Não cabe nele nem demonstração,
Tampouco da ilusão sofre o império...
É que ele aprendeu no magistério
Da vida: o amor não é ostentação.

Profunda e sensível de verdade
Essa afeição em muita quantidade,
É dada, embora não veja a fartura.

Mas do amor adulto a semente
Não surge por acaso, ele somente
Germina na mulher de alma madura.

Erigutemberg Meneses

LABIRINTO

Como num labirinto sem ter volta
Eu vejo vaguear a minha boca
Sobre o teu corpo, fonte sempre pouca
Pra sede do desejo que anda à solta.

E entre paredes quentes a revolta
De não achar saída não espoca
Se a cada ida ouço tua voz rouca
Pedindo e se dá a reviravolta.

Preso ao canto enganoso da sereia
Que chama para a morte na areia
Movediça do corpo eu me sinto.

Mas neste eterno fim sempre em começo
Entre os mil vãos secretos eu padeço
Sem desejar sair do labirinto.

Erigutemberg Meneses

SORRISO

Se não há rumo certo para ir
E os passos deixados sobre o chão
Na poeira do tempo sumirão,
Após o corpo sem forças cair,

A cada um só resta perseguir
A linha do horizonte onde estão
Os sonhos muito próximos da mão
De quem não tenha medo de sorrir.

Se fizermos do riso o passatempo,
Na caminhada todo contratempo
Em alegria iremos contornar,

Que no rumo incerto, o sorriso
É a chave do portal do paraíso
Que fica onde quem for feliz está.

Erigutemberg Meneses

O TEMPO

O tempo toda hora me persegue
Com seus miúdos passos de andador,
Tornando o dia cada vez menor
Por mais que a espichá-lo me encarregue.

Se xingo e sermões duros lhe pregue
Nem liga, e vingativo, veja só!
Reduz o mês e o ano sem ter dó
E mudo e indiferente aos rogos segue.

Já consegui do mundo as suas chaves
E abro as portas simples e as graves
Que tenho de passar durante o dia.

Mas as chaves do tempo, ter não pude
Para fazer com que o dia mude
E caibam nele as horas que eu queria.

Erigutemberg Meneses

SEPARADOS

De muito longe, além do nevoeiro
De Júpiter e seu olho encarnado
Um para o outro olhou emocionado,
E se emancipou do amor primeiro.

Como se ali deixasse um companheiro
Perdido no deserto, abandonado,
Mas pudesse depois ser resgatado,
Foi viver sua vida por inteiro.

Depois como um fantasma ao vão da porta
Um surge para o outro ao sol poente
De tarde outonal, gélida e morta.

Mas se um virou fantasma, no deserto
Da vida, o outro sob a inclemente
Areia espera ao sol ser descoberto.

Erigutemberg Meneses

FELICIDADE

Dá uma preguiça doida ser feliz:
Ter asas, mas querer voar pra trás,
E desfazer o tempo como faz
A borboleta feita em chão de giz.

E um trabalho louco, infeliz:
Ter asas sem poder ir em um zás
Aonde se quer ir, por incapaz,
Como besouro em roda na raiz.

Das borboletas, asas são os flocos
De nuvens espalhadas como blocos
De pólen de sorriso pelos ventos.

E as dos besouros são iguais ao peso
Que torna o corpo bruto mais obeso
E se batem em vôo os deixam lentos.

Erigutemberg Meneses

O BRINQUEDO

O brinquedo melhor que já ganhei
Não teve preço, mas nem se compara
Ao seu valor a peça muito cara,
Do quarto de brinquedos de um rei.

E pelos anos todos que passei
Da mesma brincadeira que não para
Não canso, se o brinquedo nova cara
Ganha apesar dos usos que lhe dei.

O que conserva novo esse brinquedo
É o jeito de brincar sem susto e medo
De inventar forma nova e atrevida.

O brinquedo da arca encantada
Que muda com a idade alcançada,
E alegra sem cansar é minha vida.

Erigutemberg Meneses


MANDACARU

Pé de mandacaru lá no terreiro,
Incólume às agruras do sertão,
Simboliza a mudança de estação
Ao enflorar, prevendo o aguaceiro.

Se não dá sombra, serve de viveiro
As aves e sem lama é cacimbão
De onde o retirante com a mão
Colhe águas limpas sob o espinheiro. 

Por resistir às lágrimas de dor
E se fortalecer no amargor
Do abandono, com resignação,

O amor que enfrenta a seca da maldade
E se abre em flor, matando a saudade,
É o mandacaru do coração.

Erigutemberg Meneses