O SONHO MAIOR

Sonhei um sonho grande o bastante
De superar qualquer sonho do mundo,
Maior do que o universo, a todo instante,
A expandir-se, além do céu profundo.

Sonha um rei, ser santo de fecundo
Reino; e o santo, um dia estar diante
De Deus que se sonhasse o mais rotundo
Sonho do meu estava, ainda, distante.

Pois seja lá um sonho ou o que for
Fantástico que o Deus uno sonhou
É algo que jamais se vai saber.

E a ausência de uma deusa pra escutar
Faz o sonho de Deus se apequenar
Diante deste sonho a ti dizer.


Erigutemberg Meneses

RELÓGIOS DA VIDA

Na realidade, tudo é aparente
E o tempo de existência, muito mais.
A vida é um relógio indo a frente,
Enquanto, outro, caminha para trás.

O que se adianta é o presente
Que no passado logo se desfaz.
E aquele a recuar tão velozmente,
É o futuro, também, muito fugaz.

São tão sincronizados os engenhos
Que apesar das paixões e dos empenhos
Um passo dado é, apenas, impressão.

E na realidade de utopia,
Talvez, seja a própria existência,
No meio dos relógios, ilusão.

Erigutemberg Meneses

SEM PROMESSAS

Espero que não tenhas mais desejos,
Sonhos, promessas, planos e afins,
Na crença de que soprem os querubins
Sobre os anseios ventos benfazejos.

As juras sem cumprir viram rastejos
De agouros, o mais das vezes, ruins
E os desejos e planos sem que aos fins
Se chegue, nunca passam de gracejos.

Antes de prometer se esforce mais
E deseje o que fores capaz
De conquistar com tua própria força.

Se mudas teus anseios em prazeres
Diários, o exército de seres
Divinos para ti, quem sabe, torça.

Erigutemberg Meneses


RECRIAÇÃO

Senti vibrar ao sopro de um deus
Meu corpo e entre os beijos mais ardentes,
Cortados de palavras indecentes,
Desfiz meus membros entre os membros seus.

E em meio aos gestos bruscos, entrementes,
Leves como afagos, vi os véus
Da vergonha e pudor irem aos céus
E inteira dei-me aos toques imprudentes.

Ao fim, de alma inteira derretida
Sob a carne sem forma, amolecida,
Pela intensidade do prazer,

Rejuntei sobre o leito os pedaços
De mim e aconchegada entre seus braços
No antigo corpo vi nova mulher.

Erigutemberg Meneses

MANGA-ROSA

No gesto do menino desejando
O vi e fiz-me rubra manga-rosa
À boca do olhar muito ansiosa
Devagarzinho a fruta devorando.

As mãos ocultas iam apalpando
A casca do vestido melindrosa,
Enquanto uma mordida vigorosa
Ia as partes da polpa arrancando.

Amolecida inteira num instante
Servi neste repasto delirante
De energia à gula do prazer.

E quando os dentes deram no caroço
Senti escorrer do vértice em poço
A minha seiva quente de mulher.

Erigutemberg Meneses

AMNÉSIA

Não pense que é sintoma de loucura
Tão próprio da velhice que chegou.
Esqueço-me dos números por pura
Vontade de lembrar que vivo estou.

Deslembro da idade, da altura,
Do peso... Isso interessa ao doutor,
A quem recorro pouco... Quem procura
Doença acha mais do que pensou.

Mas não torno a mente preguiçosa,
Como cuidei dos filhos, trato a rosa,
O cachorro e os amigos, com bondade.

E vindo a tristeza, abro o sorriso.
Não preciso sofrer! Do que preciso
É lembrar o que amo de verdade.

Erigutemberg Meneses


PALETA DE SENTIMENTOS

Se a paleta de cores fosse o peito
E cada cor reflexo dos humores
Seriam os casais vistos nas cores
Dos sentimentos, cada um a seu jeito.

Somente o amor real seria aceito.
Sem dicussões, ciumes ou rancores,
A vida era um universo de valores
Na arte de expor o par perfeito.

O casal de afeto fiel e franco
Com sentimentos puros era o branco,
A mistura das cores sem ter regra.

E o casal que engana, trai e mente
Teria do extrato reagente
Ao sulfato ferroso a cor negra.

Erigutemberg Meneses