UMA ENTRE AS MULHERES

Entre as mulheres uma há de haver,
No topo da cadeia das mulheres,
Singela, e entre todos seus haveres,
O que tem mais de tudo é o ser.

Pode não ser tão bela, mas saber
Seduzir e ao poder de seus poderes
Tornar-se nos mais simples afazeres
O quanto se deseje de uma mulher.

Que saiba se cuidar sem ter vaidade,
Não sendo de ninguém propriedade,
Sem ser vulgar, no amor, dê-se atrevida...

E sem tirar efeitos do exagero
Confidencie ao mundo que de mero
Mortal sou o maior bem de sua vida.

Erigutemberg Meneses


MEU LADO ESQUERDO

Eu tenho o corpo penso para um lado
Disso a idade não tem culpa, não.
Se o meu andar é assim meio arrastado
É que carrego um grande coração.

E não é a toa que é tão pesado
E de inchado parece até balão:
Mantenho nele inteiro ou desmontado
O que a vida me deu em gratidão.

Todos os meus brinquedos mais queridos
Estão lá guardadinhos, bem polidos,
Mesmo que eu pra brincar já seja lerdo.

Também os meus amigos e os amores
Que do meu existir deram as cores
Estão guardados em meu lado esquerdo.

Erigutemberg Meneses

MINHA CRENÇA

Não há ninguém no meio dessa gente
Tão crédulo em deuses quanto eu.
Não é verdade que eu seja ateu
Por das religiões ser tão descrente.

Tenho passado a vida a criar ente
Na terra idolatrado e no céu.
Que culpa tenho, se por mais que tente,
Não creia nuns, se às faces cai o véu?

Os ídolos de barro não cultuo,
Porém, divina vejo a feição
Das mulheres no amor, quando as possuo.

Em meu credo o divino se encerra
Nos mistérios humanos como são
Os das estrelas que andam pela terra.

Erigutemberg Meneses

SEMEIO

O grão do olhar joguei sobre a colina
De face graciosa e vi brotar
Por entre os lábios róseos da menina
Um sorriso que o meu foi irrigar.

O som dos risos sobre a areia fina
Dos rostos juvenis foi se tornar
Em uma chuva alegre e cristalina
Que fez de nossas vidas um pomar.

A cada dia surge nova espiga
Cheia de grãos para que prossiga
A alegria de plantar sorriso

E semeando riso grão a grão
Fazemos do jardim do coração
Tão belo quanto o próprio paraíso.

Erigutemberg Meneses

O QUE É, O QUE É?

O que é, o que é... pequena gota,
Igual ao pingo fino de orvalho,
Que mesmo entre dois sóis nunca tem falho
O brilho que de longe já se nota?

O que é, o que é... essa bolota
Igual à bolha d’água no farfalho,
Que o sol abarca estando presa ao galho
E tem do universo toda a cota?

O que é, o que é... que sem medida,
Sem peso e do mundo escondida,
Na miudeza é grande a valer?

O que é, o que é... que o paraíso
Encolhe até caber em um sorriso?
- Só a felicidade pode ser.

Erigutemberg Meneses

FENÔMENO AMOR

O amor é um fenômeno, sem dúvida.
Ninguém afirma dele o contrário.
Não se conhece seu itinerário
Nem como se conduz durante a vida.

Afirmar sua causa é temerário,
Sendo do coração incompreendida
E da razão total desconhecida.
Concordam nisso os sábios de ordinário.

Mas se é algo a se dizer determinado,
Ou então aleatório pelo dado
Que Deus não joga, é assunto controverso.

Somente numa coisa há consenso:
Sem tempo, sem distância e sem bom senso
O amor é o grande enigma do universo.

Erigutemberg Meneses


MENINA MOÇA

O vento rir do seu cabelo solto
A confundir-se às plumas dos trigais
E o sol brinca nas curvas joviais
Do corpo a semelhar rio revolto.

Nas rajadas do vento vou e volto
E nas águas do rio afundo mais,
E aumenta o sol ciumento e dela faz
Indiferente ao risco onde ando envolto.

Nos braços onde a borboleta dança
A esperança deita e descansa
Insensível a todo o sofrer

Do coração que ao peito se alvoroça
Sempre ao ver aquela gentil moça,
Celebrando a alegria de viver.

Erigutemberg Meneses

CUMPRIMENTO

Eu vou dar um bom dia para a vida
No gesto de bom dia dar à flor,
E da flor com sua boca colorida
Ouvir que ter bom dia, também, vou.

Eu vou dar boa tarde para o mundo
No gesto de boa tarde dar ao sol,
E do sol com sua boca sem ter fundo
Ouvir boa tarde até o arrebol.

Eu vou dar boa noite para o tempo
No gesto de boa noite dar ao vento,
E ouvir do vento a boa noite dada.

Eu vou cumprimentar tudo que vejo
No dia, tarde, noite, pois desejo:
Recaia em mim a coisa desejada.

Erigutemberg Meneses

SONETO DO CIÚME

Ciúme é uma faca sobre a língua,
Se à boca, a palavra não se míngua
E um esgoto, que jamais se esgota,
Quando palavras duras se arrota.

Ciúme é um tóxico e vicia
E não se sabe quando se inicia
E um ralo por onde o amor se rala
Quando levado a rodo ele se cala.

Com o seu corrosivo sentimento,
Mata o amor com balas de ciúme
O amante, pistoleiro ciumento.

E assim, por mais que se ame este bandido,
Se o malfeitor não larga o costume,
De nossa vida deve ser banido,

Erigutemberg Meneses

EXEMPLO

Não tira a abelha o mel só de uma flor,
Em vôo de muitas outras se alimenta
E no jardim as leiras têm mais cor
Do que o arco-íris apresenta.

Se vai a abelha em vôo de flor em flor
No jardim que de cores se arrebenta,
Por que durante a vida único amor
O homem deve ter, se não agüenta?

Se a natureza sabia é nosso templo
É para ser seguido o exemplo
Que com sabedoria ela nos dá,

Então se a flor humana for a boca
A coleção beijada ainda é pouca,
Para o homem a abelha se igualar.

Erigutemberg Meneses

QUEM

Quem foste tu, mulher? Nova Helena
Dos versos de Ronsard, ou Beatriz
De Dante para quem o poeta acena
Com versos do amor mais infeliz?

A Laura a quem Petrarca muito quis?
Margarida a quem Fausto doou a pena?
Quem foste tu, mulher, que de sua chávena
Veio o veneno aos meus lábios de anis?

Na história há muitas outras tão queridas
Mulheres que o tempo há de lembrar
Por serem dos amantes conhecidas.

Mas desse infeliz amor proibido,
Forçoso a mim mesmo é confessar,
Morrer sem de ti nada ter sabido.

Erigutemberg Meneses

FLOR DE PELE

Teu corpo é flor e nele me concentro,
Aspirando o perfume que ardia
Em mim, quando ainda as pétalas abria,
Colando-me à haste presa ao centro.

Da corola aberta então sorvia
Insone nesse sonho que ainda adentro,
Como abelha hospedada bem ao centro,
A mais deliciosa ambrosia.

E com beijos de fogo os meus lábios
Aprendiam o que somente os sábios
Conhecem sobre a arte de beber.

E o corpo em flor, fundido em doce aroma,
Tornava-se o licor que só se toma
No cálice do ventre da mulher.

Erigutemberg Meneses

MEIA-IDADE

E chega-se, enfim, à meia-idade:
No corpo o que não dói, não funciona
E em nós o animal que vem à tona
É a preguiça que outro, é inverdade.

E se um dia vier a tal vontade
De revitalizar a impura zona,
Se esquece do dever, mesmo se a dona
Sujeita-se a fazer tal caridade.

Fica-se invisível, mas o espelho
Se vinga das caretas do fedelho,
Expondo o corpo em franca decadência.

Mas a auto-estima, que o espelho vence,
Também, da troça alheia nos convence
De que ainda se tem boa aparência.

Erigutemberg Meneses

VIDA DE ABELHA

Se tão atarefada se conduz
Na colméia tal qual escrava fosse,
A vida da abelha será doce
Como faz crer o mel que ela produz?

E das tarefas que ela faz jus,
Dando à rainha tudo, sem ter posse,
Será que algum prazer uma lhe trouxe,
Vindo amenizar a sua cruz?

A abelha de um bando alegre e louro,
Que alça à fronte aureola de ouro
Será ou não será sempre feliz?

Passava o pessimista isto na telha,
Quando indiferente veio a abelha
Ferroar-lhe a ponta do nariz.

Erigutemberg Meneses