ENGANO

Da criação o homem é o grande engano:
Se de fora parece um cordeiro,
Tem no avesso o aspecto verdadeiro
De quem desaprendeu a ser humano.

É falso! É egoísta! É mundano!
Se prega o sentimento altaneiro
E em ajuda quer ser o primeiro
O faz para impor-se soberano.

E se fala de amor, fraternidade,
Sua prática não é a caridade,
Pois Deus lhe está ausente ao coração.

Com gestos e palavras, tão mesquinho,
O homem-lobo faz o seu caminho
Da fome e da miséria do irmão.

Erigutemberg Meneses


CANÇÕES

Já não se ouve mais canções de amor
Na cidade e o silêncio cala os campos...
Ao olhar não se enxerga os pirilampos
Ou num jardim de rua uma flor.

As aves não são vistas com os tampos
De aurora em seus bicos e a cor
Da campina é a da rosa que murchou
No asfalto a prendê-la com seus grampos.

Sem voz os homens queimam-se aos caminhos
Sem encontrar as mãos que dão carinhos
De quem ouvindo se abre ao sonhar.

Se o silêncio se escorre entre os dedos
De concreto e de palha, sem ter medos,
Novas canções de amor, vamos cantar?

Erigutemberg Meneses

MOTIVO

Em mim tudo é desejo, se ando vivo,
Dementado em um sonho de poeta
Para quem a poesia se completa
Na cobiça de um corpo convulsivo.

De carne e osso sou bicho lascivo
E em busca do prazer, nada me veta.
Os frisos da mulher tenho por meta,
Se a alma de ser polígamo eu privo.

Construo com palavras a desordem
Do meu vasto desejo da mulher
A quem submissa agudas garras mordem.

E abocanho expressões entre os gemidos
Do corpo para depois reescrever
Os versos com o eco nos ouvidos.

Erigutemberg Meneses

ILHA

Não sei mover-me na água e nem voar
E estou prisioneiro numa ilha.
Entre o verde e aves faço a trilha
Com alguém que não quero acompanhar.

Muitas vezes me surge ao olhar
Como Vênus, trazendo à gargantilha
Espumas, nada mais, contudo à milha
Se encontra de seu corpo o meu pensar.

Nas horas de cor d’água, indago aos ventos,
No que parece em terra o paraíso,
Como pode haver tantos tormentos?

No fastio da noite já defronte,
Eu ouço: se não fosse indeciso,
Movia os pés, mudava o horizonte.

Erigutemberg Meneses

RELÓGIO QUEBRADO

Depois de uma marcha demorada
Os ponteiros se encontram ao meio-dia;
Recomeça, em seguida, a agonia,
Até a meia-noite esperada.

O coração de ferro em ritmada
Batida o desfecho pressagia:
Após o breve tique da alegria
Vem o taque da espera odiada.

No curso compassado há esperança
Do encontro que em breve se alcança,
Estando a engrenagem em bom estado.

O atraso, a demora, ai quem dera!
Lamenta o ponteiro que espera
Em um relógio que está quebrado.

Erigutemberg Meneses

NUMA BOA

- E como vai? Vai tudo numa boa,
Respondo a quem pergunta e fico à toa...
O que se vê de bom nessa cidade,
Consumida em droga e crueldade?

O bom era empinar pipa no pasto,
Quando ainda eu tinha o olho casto
E, menino, olhava divertido,
A pipa com seu rabo colorido.

Vai tudo numa boa... E como vai:
A pipa com cerol, balão que cai
E a favela acesa em candeia...

- Na boa, passa a bolsa... E, de assalto,
Vejo a vida cortada no asfalto
E a pipa empinada da cadeia.

Erigutemberg Meneses


GENTE

Há gente que se esconde em armadura,
Gente que pára, que se determina,
Gente que dá porrada, gente fina,
Gente que a gente ama, não se atura.

Gente que entrega os pontos, sem frescura,
Gente com quem a gente não se afina...
Gente! Toda essa gente nos ensina
Que somos dessa gente a mistura.

Mas sempre que olhamos para o lado
Vemos gente fazendo algo errado,
Enquanto nós aos vícios resistimos.

Não somos gente, isto é o que parece,
Contudo, quando em nós desaparece
A gente, sobre a gente mais mentimos.

Erigutemberg Meneses


A ÁRVORE DA VIDA

A vida é uma árvore frondosa
Cheia de folhas, flores que dão frutos.
Uns caem ao chão, sem terem atributos,
E outros tendo, a mesma sorte goza.

Há ninhos sobre a rama calorosa
Onde os filhotes os mais caros tributos
Rendem, antes de cobrir de lutos
Pela caída à lama pegajosa.

Mas até esta árvore antiga
Um dia entoará a mesma cantiga
Da folha, fruto e aves ante a queda.

Sem viço e enchida de saudade,
Lamentará a perdida mocidade,
Enquanto aos fios da morte se enreda.

Erigutemberg Meneses