CICLO TERRENO

Sem vida o nosso corpo se comporta
Como se fosse uma mera fruta
Amolecida ao chão sob a retorta
Língua de uma mosca dissoluta.

Macera o inseto a pele morta
A ter vermes e germes na disputa
E à matéria morta pouco importa
O glutão que vencer esta disputa.

Em acre odor mais digno de estrume
Se resuma o mais sutil perfume
Da fruta e do corpo em plena forma.

Da vida então nos resta a certeza
De que a terra é a farta mesa
Em que tudo em comida se transforma.

Erigutemberg Meneses

A TAL FELICIDADE

A tal felicidade que nós cremos
Só existir nos outros e se afasta
De nós e quando a temos já é gasta,
E dura um tempo curto que nem vemos,

Não tem segredo e todos nós podemos
Ser o local onde ela se engasta
E mantê-la num peito que a arrasta
Em todos os segundos que vivemos,

Não é um bem, mas vale um tesouro,
Tem brilho bem maior que o do ouro
E não se esconde: no olho está presente.

A tal felicidade, sim, existe,
Em cada um de nós e ela consiste
Em dar vida a um sonho da gente.

Erigutemberg Meneses



CÃO

Aprisionada à forma incompleta
Mantenho uma alma onde flutua
Um cão, porém, avesso aos cães de rua
A vida deste é pura e quieta.

Filosofia sabe, é poeta,
E ao ver o dono triste, olhando a lua,
Gane um canto em lingua toda sua,
Para expulsar a dor que lhe afeta.

Pelo gradil da face, às vezes olha,
Para além das grades, mas a escolha
Tida é aceitar o  que a vida deu.

E cumpre assim a árdua missão
De quatro patas dar ao coração
A bater sob o peito que o prendeu.

Erigutemberg Meneses

A CASA

O homem é a casa de si mesmo.
Enquanto o corpo for o seu abrigo,
Não precisa mais nada ter consigo,
Além do que na terra colhe a esmo.

Se faz da alma terras de um sesmo
A confundir os bens tidos consigo,
Acumula, porém, rico artigo
Não muda a aparência do arquedesmo.

A natureza autora do projeto
Fez do peito o recanto predileto,
Com janelas de sonho e fantasia.

A casa muda ao peso da idade,
Porém encontrará felicidade
Quem abrir as janelas todo dia.

Erigutemberg Meneses